terça-feira, 4 de agosto de 2009

“leite derramado” de Chico Buarque



Fiquei com imensa curiosidade acerca deste livro o qual comprei logo que tive oportunidade. E como acontece muitas vezes, lá o meti na frente de todos os outros que aguardam pacientemente a sua vez. E são muitos, reparo agora… O tempo é tão pouco!

Bem, vamos ao livro. Acabei de o ler.

Foi, para mim, uma agradável surpresa.

Pesem embora as belíssimas letras (poemas) que tem composto ao longo da sua vida, tenho (e penso que terei sempre) a ideia de um Chico Buarque músico, compositor de excelência, cantor, mas escritor, não.

Contudo, os dois livros que li dele, podem perfeitamente facultar-lhe esse epíteto.

O que li foi um texto muito bem construído quer ao nível exegético quer de estilo.

Todo o livro se desenvolve através de uma longa narrativa feita por um ancião para…

Aí, ele conta todo o percurso da sua vida (extremamente longa, tem mais de cem anos) sempre centrado no amor que sente ainda pela mulher. As personagens que se vão desenhando ao logo da extensa história do ancião são de uma precisão extrema na sua construção quer ao nível plástico quer ao nível psicológico ajudando assim a criar, por vezes, um clima de dramatismo em situações de aparência burlesca ou indefinida. Nestes casos penso que podemos encontrar bem patente a ironia própria de Chico Buarque.

Também muito interessante é verificar quão bem reproduz a desarticulação das ideias do ancião, conseguindo contudo uma narrativa perfeitamente articulada que, por isso mesmo, vai prendendo irremediavelmente o leitor. Expondo um enredo ora com factos verídicos, ora omissos e intuídos nas entrelinhas; ora irónico, ora dramático, consegue, além de um excelente romance, ilustrar ainda costumes de época sem que aparente prender-se com tais temas que seriam sempre transversais, quiçá supérfluos.

Sem dúvida a ler. Ainda por cima é pequenino, pesa pouco para levar para a praia.

“Barroco Tropical” de José Eduardo Agualusa


Livro que comprei logo que pude e, tal como alguns que já referi, teve o privilégio de “saltar” para a frente da fila dos que aguardam a sua vez para serem lidos.

E se valeu a pena!

José Eduardo Agualusa, desenvolve neste seu livro, com invulgar talento mesmo para quem conhece um pouco da sua obra, uma história fantástica.

Fantástica pelo seu enredo que não é bem um enredo mas sim um conjunto de pequenas histórias, algumas de natureza étnica e tradicional, que suportam e estruturam a história “maior”. Fantástica pelo recurso ao fantástico, ao onírico, ao esoterismo, a anjos negros…

Tudo se vai passando numa Luanda do ano 2020. Mas ao lermos, vamos ficando com a ideia que é da Luanda de hoje que se trata, ou um decalque desta; anárquica, contraditória, corrupta, terra de contrastes e de paradoxos, onde coexistem o sonho e o desesperança com a mais despudorada realidade. A Luanda que todos julgamos saber (falta de confiança do autor?).

Utiliza uma escrita simples se bem que, por vezes, utiliza recursos linguísticos “barrocos” como a antítese, o oximoro, a hipérbole e a metáfora. Mas, quando o faz, quase sempre utiliza um parêntesis justificativo, como autor. Aliás utiliza parêntesis explicativo em várias situações e com funções diversas. Um recurso deveras interessante.

As personagens são várias e variadas e são-nos apresentadas uma a uma no início com a respectiva importância na história.

Todas extremamente bem caracterizadas, sobretudo as de maior relevância para o desenvolvimento e desfecho da narrativa. E temos modelos, prostitutas, cantoras, pessoas sem rosto que usam uma máscara, ministros, militares, curandeiros de grande influência e um escritor (quiçá um pouco o alter-ego de Agualusa?) que é ao mesmo tempo a personagem principal e o narrador. Esta segunda função partilha-a em parte com a outra personagem mais destacada, esta feminina, quando nos vão narrando os acontecimentos à vez, cada um em seu capítulo, que dão corpo à história.

É um livro que nos vicia e não queremos largar.

Excelentemente escrito. É espantosa a forma como nos conduz de um episódio francamente humorístico e ligeiro a outro de pendor profundamente dramático.

Obra excessiva que não fez mais do que confirmar Agualusa como um dos meus (muitos, é verdade) autores favoritos de língua portuguesa.

domingo, 26 de julho de 2009

“A Lista da Morte” de Julie Garwood


Quando li a sinopse deste livro, embora não conhecesse a autora, pareceu-me que se tratava de um thriller policial, psicológico ou, pelo menos com algum suspense.

Já vos disse que gosto bastante desse género literário quando bem escrito.

Pois que não é. Pois que o livro me saiu de enredo cor-de-rosa do tipo dos romances de cordel. Apenas aqui a heroína não é desgraçadinha nem órfã de pai ou mãe, mas sim uma herdeira riquíssima, nem o “príncipe” salvador anda atrás do seu dote. Desenganem-se. É amor do puro, do bom, daquele que se encontra muito nos filmes, nos romances… Enfim, por aí!

Ah! Não esquecer. Além de inteligentíssimos são ambos de cortar a respiração (e não é necessário ser-se asmático) a quem olha.

Agora poderão perguntar, tal como eu me perguntei: quem faz estas belíssimas sinopses?

Pois bem, só posso concluir que ou não leu o livro todo, ou estava algo distraído.

Embora se possam encontrar uns assassinatos logo no início e lá mais para o meio, tais eventos, não acrescentam nem tiram nada ao enredo. São meros enfeites plantados nas margens daquele amor tão lindo…

É verdade que justificam a presença do herói por quem a heroína se apaixona irremediavelmente, tendo a sorte (incrível!) de ser correspondido no processo!

Bem, poder-me-ão perguntar também: porque leste? E eu terei de confessar que, além de detestar não acabar um livro iniciado, nunca o faço, a verdade é que também é bom pintar a alma de cor-de-rosa e viajar para o reino da fantasia. Na minha adolescência, talvez até mais pré-adolescência (sempre fui algo precoce), também li com as outras colegas de liceu alguns desses de cordel que me faziam sonhar muito e, afinal, não me fizeram mal a nada! E, convenhamos, este pelo menos não estava mal escrito!

Portanto, minhas amigas e amigos, a ler, sem dúvida, se apreciam literatura rosadita. Ah! Vejam só, aparentemente vai ter sequela…

quinta-feira, 16 de julho de 2009

“Rebeldes” de Sandor Márai


Foi com grande curiosidade e grandes expectativas que comprei e, aldrabando a lista dos que esperam, comecei a ler este livro.

Havia lido três livros deste autor (“A mulher certa”, “As velas ardem até ao fim” e a “Herança de Eszter”), penso que todos os que existem em português e, gostei tanto deles que não tive paciência para aguardar mais tempo.

Grande decepção! É sempre assim, creio, quando temos expectativas muito elevadas… Mas, na verdade, julgo que não é apenas uma questão de não ter atingido a fasquia onde eu a tinha, com toda a propriedade, colocado. Não. Na minha opinião o livro não exibe nem de longe, nem de perto, a qualidade observada nos que anteriormente referi.

Passado numa zona remota da Hungria, nos finais da Primeira Grande Guerra, longe da acção mas sofrendo, do mesmo modo, as inconveniências nefastas pela ausência dos homens válidos ainda na frente de batalha, é-nos contada a história de quatro jovens “rebeldes” e um estranho amigo, actor. Longe do jugo dos pais, anseiam pela liberdade e, talvez, por muito mais …

E é aí que tudo se confunde.

É difícil de ler porque pouco perceptível. O autor não se define em termos de intenções. É dúbio, denso, pouco claro.

Julgo que procura, como tema, abordar as grandes amizades juvenis, a definição da sexualidade, o erotismo no seu auge mas também ainda reprimido pelo pudor. Tudo isto, já de si nada fácil, à mistura com a intriga, a traição, o amor (ambíguo nas inclinações e nas aversões) só pode redundar em tragédia.

Pelo meio fica o desconsolo. Desde o início ao fim do livro esperei aquela centelha (que muitas vezes não se encontra logo), que me iria fazer, finalmente, reconhecer o autor que eu contava aqui encontrar.

Espera vã. Tal não aconteceu. A narrativa manteve-se sempre enrolada, pouco clara e, cheguei ao fim, sem conseguir um retrato psicológico minimamente capaz de cada personagem.

Estranho. Porque se há aspecto em que este autor se destaca, nos restantes livros, é exactamente na composição psicológica das personagens de uma riqueza tal que, a dado momento, parecemos estar na sua pele a viver as suas vidas, a pensar por eles.

Bom, não digo para não o ler. Esta é apenas a minha opinião. Mas se não leram ainda os outros, privilegiem-nos.

domingo, 5 de julho de 2009

"O Rapaz do Pijama às Riscas" de John Boyne


Acabei hoje de o ler e, em boa verdade, não posso dizer que me tenha causado a impressão que eu esperara.

Enfim; lê-se bem, lê-se rápido, mas é morno.

Sobretudo para quem, como eu, leu “Como o Soldado Conserta o Gramofone” de Sasa Stanisic que falava sobre o mesmo tema, os judeus (e não só) na 2ª Guerra Mundial e, curiosamente, com uma abordagem muito semelhante, não pode evitar uma sensação de defraudamento.

Esperava mais. Esperava mais não só porque o assunto o merecia mas também pela inundação de publicidade com que fomos bombardeados em relação ao livro e, posteriormente, ao filme. Eu cá tenho as minhas razões para desconfiar destas badalações…

Bom, voltando ao livro. Lê-se de um fôlego, é pequeno e sem engulhos de leitura, e não posso dizer que me tenha sido indiferente. Não foi. Acompanhou-me sempre uma sensação algo perturbadora. Não pelo que acontecia mas, precisamente, pelo que não acontecia… É que a ingenuidade do protagonista/narrador é tal que aflige.

À medida que vamos lendo, vamos sendo confrontados, ou melhor, nem isso; vamos intuindo (de acordo com a nossa capacidade para o fazer a qual, neste caso, se prende também com o nosso conhecimento acerca desta época específica) os horrores do campo de concentração, o extermínio dos prisioneiros, sem que o narrador, uma criança de nove anos, tenha disso (estranhamente) a menor consciência.

Vai procurando explicações para aquilo que vai observando sempre no contexto do mundo que ele conhece; o do lado de cá da vedação e muito limitado.

Estranho que sendo a criança filha de um oficial de alta patente, digno da visita do Fuhrer para jantar, nem sequer tenha a consciência da diferença entre uma farda e um uniforme de prisioneiro.

Ele havia coisas estranhas naquele tempo, naquele país, não havia?

Na volta não passou tudo de uma enorme ingenuidade…

terça-feira, 30 de junho de 2009

“O amor não espera à porta” de Marisa de los Santos


Mais um que acabei de ler e já me aguardava há algum tempo.

Devo dizer que o achei de leitura interessante e agradável dando vontade de a prosseguir quase continuadamente.

Com um estilo de escrita que posso considerar original, desde logo prende a atenção do leitor.

Escrito na primeira pessoa, por duas personagens, vai-nos dando visões sucessivas da história. Ora através de um adulto, ora através de uma criança.

A história, sem dúvida uma história de amor nas suas diversas vertentes (romântico, familiar, amizade…), passa por momentos de verdadeiro drama que só a sageza da autora no aligeirar da sua abordagem, evita que o livro adquira contornos exageradamente dramáticos.

Para tal a autora utiliza recursos tais como referências constantes a filmes, a actores de cinema, a momentos desses filmes, para ilustrar situações, emoções, sentimentos, bem como o diálogo jocoso da personagem consigo própria…

Quanto a mim, peca apenas pelo excesso dessas alusões relativas ao cinema, bem como pela atitude, exageradamente adulta, que a personagem criança revela em várias situações; muito forçadas no meu ponto de vista.

Contudo, livro a ler.